Quando o trabalho paralelo é mais do que um lado B

Por Letícia Arcoverde | De São Paulo

Ter foco, dedicação e esforço para avançar na carreira não é tarefa fácil, mas isso não impede algumas pessoas de dobrarem esse desafio e se dedicam a duas trajetórias profissionais ao mesmo tempo. Embora muitas empresas ainda vejam essa situação com hesitação, outras abrem as portas para esses funcionários, aproveitam seus talentos múltiplos e, de acordo com nova pesquisa, acabam com profissionais mais engajados e autônomos.

Levantamento realizado com quase 500 profissionais brasileiros com pós-graduação mostra que 26% possuem carreiras paralelas. O estudo foi feito pela consultora Maria Candida de Azevedo para o doutorado na Universidade de Heerlen, na Holanda. “Mesmo assim, a maioria das empresas ainda é contrária a essa situação, que enxerga como perda de tempo e foco”, explica a consultora da empresa People & Results e professora.

Em sua pesquisa, ela mapeou o perfil típico desse profissional: a maioria é homem, por volta dos 30 anos, casado com um cônjuge que também trabalha e sem filhos. “São pessoas automotivadas e com uma grande capacidade de serem multifuncionais e solucionarem problemas”, conta. Para configurar uma carreira paralela, a segunda atividade deve ser diferente da principal – ou seja, não é um apenas um segundo emprego – e deve configurar algum vínculo empregatício ou comercial, o que significa que não pode ser trabalho voluntário ou só um hobby.

Ao comparar profissionais com esse perfil e aqueles com apenas uma carreira, Maria Candida descobriu que o nível de proatividade, satisfação no trabalho, comprometimento e percepção de empregabilidade são iguais entre ambos. Já a intensidade de engajamento, a energia (que diminui o risco de “burnout”), o protagonismo e a autonomia na gestão da própria carreira são mais altos entre aqueles que equilibram duas atividades.

Ao mesmo tempo, Maria Candida vê o estímulo às duas atividades como uma vantagem na hora de contratar e reter profissionais. “Se uma empresa proíbe, a outra promove, e isso vira fator de atração de pessoas”, diz. Segundo a consultora, as empresas que já têm esse costume são companhias que praticam a gestão por resultado e oferecem horários mais flexíveis.

É o caso da empresa de tecnologia da informação Avaya, onde Alan Constâncio é líder de service providers há dois anos. Há cinco anos, o engenheiro elétrico de 35 anos atua paralelamente como instrutor de paraquedismo, esporte que pratica há mais de uma década.

Para ele, a abertura da companhia para esse tipo de prática, a cultura flexível e a avaliação por metas são essenciais para que ele seja capaz de conciliar as duas carreiras. “Sinto que as pessoas da empresa realmente têm interesse naquilo que faço como trabalho paralelo”, diz. Ele considera que essa situação é mais comum no setor de tecnologia, onde a cultura da flexibilidade é mais forte. Nas empresas em que trabalhou ele não teve que esconder a segunda profissão, mas diz que já sentiu uma preocupação com o risco envolvido no paraquedismo. Já aconteceu, no empregador anterior, de ele não poder usar o seguro de vida da companhia por causa da atividade não convencional.

Constâncio trabalha durante a semana na Avaya e nos fins de semana faz uma média de 20 saltos duplos como instrutor em uma escola de paraquedismo, a Sky Company. Recentemente ele também entrou para o comitê de segurança da Confederação Brasileira de Paraquedismo. “Meu estado de motivação durante a semana é diferente, estou feliz com ambos os trabalhos”, diz. Quando Constâncio tira férias, busca ter folga nas duas profissões e tenta não se envolver com o trabalho. E, ao longo do ano, quando o cansaço bate, ele aproveita para ir para a praia e “deixar todo o estresse lá”.

Na Avaya, ele tem a possibilidade de trabalhar remotamente quando precisa e fazer horários flexíveis. Além disso, em 2012, a companhia sorteou dois saltos de paraquedas com Constâncio em um evento interno. Além de parcerias como essa, segundo Paulo Roseira, especialista sênior em RH, a empresa busca incentivar e divulgar internamente o trabalho de profissionais como Constâncio em uma seção da comunicação interna, criada no início deste ano, chamada “Além de Avaya, também sou…”. Segundo Roseira, como a empresa vende tecnologias de trabalho a distância e comunicação corporativa, ter uma política de flexibilidade é uma forma de apresentar os produtos da companhia aos funcionários. “Isso facilita a compreensão deles sobre como o serviço da empresa funciona”, diz.

É sempre importante, contudo, ter algum tipo de controle sobre essas atividades. Na farmacêutica AstraZeneca, a companhia tem uma política de conflito de interesse, que exige que a segunda carreira não comprometa o trabalho na farmacêutica e obedeça aos padrões globais e locais de governança e compliance. “Isso respeitado, a pessoa pode ter uma atividade paralela”, diz Miguel Monzu, diretor executivo de RH e comunicação.

Na empresa, o mais recorrente é que funcionários médicos atendam em consultório ou deem aulas, mas também há profissionais que assumem atividades comerciais como restaurantes. Em todos os casos, Monzu reforça que a empresa valoriza o fato de eles estarem em contato com pacientes, com o mercado ou com o dia a dia de como gerir um negócio. “Vejo nessas pessoas a capacidade de trazer esse aprendizado e desenvolvimento para a companhia”, diz.

Todos os anos, os funcionários respondem a uma declaração de conflito de interesse, que inclui perguntas sobre possíveis carreiras paralelas. “Analisamos cada caso e julgamos o que pode infringir as regras”, diz.

O psiquiatra Primo Paganini, gerente médico sênior da AstraZeneca, atende em consultório desde 1998 e trabalha na indústria farmacêutica desde 2001. Paganini já atuou na AstraZeneca com remédios da área de psiquiatria entre 2006 e 2010, mas voltou à empresa em 2012 justamente pelo desafio de atuar com medicamentos que não estavam relacionados a sua especialidade. Hoje ele trabalha nas áreas de cardiovascular e gastrointestinal. “Os trabalhos se complementam e me ajudam a fazer as duas coisas muito bem. A atualização que o emprego na farmacêutica exige enriquece a atuação no consultório, e o que eu vejo nele me auxilia nos relacionamentos profissionais”, diz o médico, que possui cerca de 20 pacientes e faz consultas nos fins de semana.

Na Volvo, o diretor de assuntos corporativos do grupo para a América Latina, Carlos Ogliari, destaca a recepção de carreiras alternativas como consequência da preocupação da companhia com o desenvolvimento contínuo dos funcionários. “A segunda atividade, feita em horário compatível, é estimulada porque é uma possibilidade concreta de crescimento profissional e pessoal”, diz. Para ele, por exemplo, ter um trabalho extra pode ser uma vantagem no caso de um profissional jovem cotado para um posto de liderança.

A empresa tem, no entanto, alguns cuidados para que nenhum dos dois lados saia prejudicado, como evitar que a atividade sobrecarregue o profissional e garantir que ele não use informações confidenciais ou preste serviço para concorrentes. Os funcionários respondem anualmente a uma declaração de conflitos de interesse.

Algumas segundas carreiras surgem durante o programa de preparação para a aposentadoria, oferecido cinco anos antes da saída do funcionário. A empresa oferece ajuda com networking, bolsas em especialização e flexibilidade de horário. Ao mesmo tempo, busca aproveitar os serviços de profissionais – foi o caso de um que desenvolveu uma empresa de coaching para estagiários e aprendizes e outro que montou uma empresa de máquinas de café, que hoje são usadas na empresa.

Um dos principais representantes dessa política da companhia é Paulo Turci, gerente executivo de pós-venda de recuperação de peças, que lidera uma equipe de 48 pessoas durante a semana e apita partidas de vôlei no Brasil e no exterior nos fins de semana e períodos de férias.

Apaixonado pelo esporte, Turci passou 10 anos como atleta mas nunca se destacou, então acabou deixando a carreira nas quadras para se dedicar aos estudos. Aos 30 anos recebeu o convite de amigos para apitar partidas em jogos não oficiais, o que o levou a fazer cursos de arbitragem. Em 2004 foi indicado pela confederação brasileira como árbitro internacional.

Na Volvo há 26 anos, ele usa a flexibilidade que o cargo de liderança oferece para trabalhar de forma remota e viajar nas quartas-feiras para apitar jogos nas sextas e sábados. Em competições internacionais, que podem durar até 20 dias, ele tira férias da empresa. “Quem fica brava é a família”, brinca, mas adiciona que, quando não há restrições da competição, a esposa, que é apontadora do esporte, e o casal de filhos viajam com ele. Ao todo, Turci apita entre 40 e 50 partidas por ano. Em abril, foi o árbitro da final da Superliga Masculina, em Belo Horizonte.

Ele percebe que uma atividade o ajuda com a outra. “Como líder, tenho que tomar decisões com rapidez, e essa característica eu levo pra quadra. Já o trabalho como árbitro me ajuda a julgar situações no dia a dia corporativo e comunicar decisões de forma clara”, diz.

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