Conversar sobre salário já não é mais tabu

Adeus, constrangimento! Falar sobre quanto você ganha com colegas pode ajudá-la a negociar aumentos e melhores cargos no mercado de trabalho.

Até parece fofoca. Mas saber o salário dos colegas é uma arma poderosa para conseguir aumento, além de ser um termômetro do seu status na empresa. Sim, a gente sabe que no Brasil isso ainda é tabu – ninguém quer ser a enxerida do escritório. Mas em alguns países da Europa esse papo é tão natural que, entre uma cantada e outra, aquele gato da balada pode perguntar o que está escrito no seu contracheque sem a menor cerimônia. Depois dos smartphones e das redes sociais para qualquer gosto, estamos acostumadas a compartilhar todos os tipos de informação, desde as fotos daquela viagem incrível até onde pretendemos passar a tarde de domingo. Nesse universo cada vez menos reservado, revelar (e comparar) salários está virando assunto até de mesa de bar. Tire proveito desse novo fenômeno.

Hora da investigação

Antes de sair com seu bloco e caneta na mão atrás dessas informações, é preciso que você tenha em mente: por que eu quero saber? O que vou fazer com isso? Se é apenas curiosidade para deixar a competição entre você e aquela colega de quem não gosta ainda maior, é melhor deixar para lá. Investigar os salários do pessoal só para fazer fofoca ou esnobar pode queimar sua imagem dentro da empresa. Agora, se você está insatisfeita, realmente desconfia de que é mal paga e acredita que esse pode ser o incentivo de que precisa para brigar por uma remuneração mais justa ou ir atrás de uma posição melhor no mercado, siga em frente. “Saber quanto os colegas ganham faz com que as pessoas percebam seu valor e quais oportunidades estão abertas para elas”, diz Silvio Celestino, sócio-fundador da Alliance Coaching e autor do livro Conversa de Elevador – Uma Fórmula de Sucesso para Sua Carreira(Sedna).
Ok, você decidiu que quer saber a verdade, nada mais que a verdade. Sua primeira opção é vasculhar a internet. “Existem sites de emprego com vagas em aberto onde o salário é revelado”, diz Maria Candida Baumer de Azevedo, sócia da People and Results, consultoria especializada em carreira. Você também pode buscar informações no sindicato de cada profissão. É comum ter ali, pelo menos, o piso salarial. Outra saída: checar se o RH da empresa tem esse dado. Nos Estados Unidos, tem empresa que publica até o salário do presidente na intranet. Claro que é exceção. Muitas corporações ainda preferem que essa informação seja sigilosa. Para elas, é uma carta na manga para manter as vantagens na hora da negociação salarial. Só que ninguém consegue controlar os papos dos corredores.

Conversa franca

Falar de salário é arriscado. Se está decidida a buscar essa informação de forma, digamos, extraoficial, vai precisar revelar quanto ganha. Sim, essa é uma conversa de mão dupla e que deve ser feita com pessoas com cargo semelhante ao seu. Mesmo que o grau de intimidade com o colega escolhido seja alto, não pergunte de cara quanto a pessoa ganha. Diga que está fazendo uma pesquisa de mercado para melhorar a sua carreira e gostaria de saber quanto está sendo pago a profissionais como vocês. Assim, evita desconforto e fica mais fácil abrir o jogo.
Faça a abordagem em um lugar apropriado. A máquina de café ou o banheiro da firma não valem. Nem solte o verbo no meio da happy hour: pode parecer que está querendo se exibir e gerar fofocas. O certo é escolher um ambiente neutro (que tal um almoço em um restaurante bacana?). O bate-papo não precisa girar em torno de valores exatos. Aposte na discussão de faixa salarial e use frases como “Ganhamos em média tanto…”, “No mercado, paga-se em torno disso…” Assim como comparamos os preços entre nossas lojas de sapatos preferidas, é bom sempre saber o valor da sua profissão. E a gente nem precisa dizer que, se o colega confidenciou a informação, você tem que ser fiel a ele e manter o segredo.

Ouvi e não gostei, e agora?

É importante estar preparada e não se deixar abalar se, por acaso, descobrir que não recebe o mesmo que seus colegas. Um estudo feito em conjunto por pesquisadores das Universidades da Califórnia, Berkeley e Princeton, publicado pelo jornal Washington Street Post, avaliou mais de 6 mil funcionários da Universidade da Califórnia depois de divulgar quanto os colegas ganhavam. Os que recebiam menos que a média ficaram insatisfeitos e mais propensos a procurar um novo emprego. Ficar descontente se receber uma informação negativa é normal, mas segure o impulso de chutar o balde baseada em conclusões precipitadas. Em primeiro lugar, é bom lembrar que salário ainda é visto como sinônimo de sucesso, então seu colega pode passar um valor que gostaria que fosse o real, mas não necessariamente é. Sim, talvez ele minta! Em segundo lugar, você precisa analisar com quem está se comparando. Às vezes sua colega ganha mais por ter uma formação acadêmica melhor, ser especialista em alguma área ou ter mais experiência no assunto. O velho “Eu trabalho muito mais que ela” não significa que você mereça um salário maior.
Depois de fazer sua investigação, se descobriu que seu salário não é tão bom assim, você pode tomar duas atitudes diferentes: ir falar com seu chefe para tentar um aumento ou procurar outra posição. A conversa deve ser bem planejada. Comece falando que percebeu que seu salário está um pouco defasado. Use a informação salarial dos colegas a seu favor, mas nunca cite nomes. Diga frases como “Conversei com algumas pessoas do mercado” ou “Em um papo com alguns colegas percebi…” Depois disso, pergunte o que pode fazer para melhorar e merecer um aumento. “Ouça as recomendações do chefe e crie com ele um plano de desenvolvimento”, diz a consultora de carreira Marisa Silva, de São Paulo. Não exija nada. Questione e o faça pensar. Se o papo não rendeu a mudança que esperava, hora de partir para entrevistas. Com certeza existe lá fora uma empresa que reconheça seu valor.

Publicado em 22/11/2013

Bárbara dos Anjos Lima e Rafaela Polo – Edição: MdeMulher

 

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